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SPTuris compara preços entre irmãos para justificar R$ 210 milhões sem licitação

Contratos de R$ 210 milhões foram renovados após comparação de preços com empresas de irmão de “diretor” e de funcionária da Quarter

Demétrio Vecchioli

25/02/2026 02:00, atualizado 25/02/2026 07:54

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Reprodução/Instagram

Gustavo Reis, presidente da SPTuris, durante evento do carnaval
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A São Paulo Turismo (SPTuris) utiliza sempre orçamentos de empresas ligadas à Agência Quarter, recorrentemente muito mais altos do que os dela, para justificar seguir contratando sem licitação a agência que a coluna já mostrou estar em nome de uma mulher que morava em um cortiço. São R$ 210 milhões em contratos renovados pela gestão de Gustavo Pires na SPTuris a partir de pesquisa de mercado com empresas interligadas.

A Quarter tem 11 contratos vigentes de terceirização de mão de obra para a SPTuris e a Secretaria Municipal de Turismo que demandaram pesquisa de mercado para serem renovados. Em dez deles, durante a etapa obrigatória de pesquisa de mercado, os órgãos municipais escolheram cotar o serviço com uma empresa de Victor Correia Moraes, a VM Produções e Eventos.

Além de funcionário da própria Quarter – informação confirmada à coluna pela assessoria de imprensa da empresa -, “Vitinho” é irmão de Marcelo Correia Moraes, que a SPTuris diz ser o “contato institucional da Quarter” e diretor de operações da agência.Play Video

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Mas não só: a SPTuris também usa sempre como referência orçamentos da Oleiro, de Claudete Santos, principal coordenadora da Quarter. É ela quem escolhe e lidera os guias turísticos que trabalham para a agência em grandes eventos, como a Fórmula 1 e o Carnaval.

Como já mostrou a coluna, a Quarter está em nome de uma mulher que tirou R$ 14 milhões de lucro em 2024 e seguiu morando de aluguel em um cortiço na zona norte. Na prática, segundo mais de uma dezena de fontes, ela é administrada pelos irmãos Victor e Marcelo Moraes. A relação entre os dois é amplamente conhecida no mercado e entre funcionários da Quarter, das secretarias e da SPTuris.

Comparação entre irmãos

A recente renovação da contratação da Quarter para oferecer guias de turismo para eventos como o Carnaval ilustra o modus operandi.

A SPTuris lançou edital em 4 de junho de 2024, mesmo dia em que a agência apresentou a ata de registro de preço com valores e condições de um contrato precedente entre as duas partes e a empresa municipal decidiu pela contratação. Em dois dias, sem qualquer concorrência, o contrato estava assinado.

Desde então, toda as vezes que o contrato precisou ser renovado, a SPTuris realizou pesquisa de mercado cotando com as empresas do mesmo grupo da Quarter. Em dezembro de 2024, tanto Claudete, assinando pela Oleiro, quanto Victor, assinado pela VM, apresentaram orçamentos acima de R$ 7,5 milhões. Como o mesmo pacote custava R$ 4,9 milhões com a Quarter, a agência foi mantida.

Em maio do ano passado, a SPTuris pediu que uma estagiária acionasse tanto a VM quanto a Oleiro para pedir novos orçamentos e descobrir, pela segunda vez, que era mais barato seguir contratando a Quarter. Em dezembro, a SPTuris economizou trabalho: juntou o orçamento que Victor havia enviado em maio e renovou o contrato pela terceira vez.

Procedimentos praticamente idênticos aconteceram em todas as outras dez contratações da Quarter renovadas ao menos uma vez pela SPTuris ou pela Secretaria Municipal de Turismo – a única exceção é um contrato de R$ 26,8 milhões, firmado no mês passado, diretamente por ata de registro de preço, sem pesquisa de mercado.

Os seguintes contratos da Quarter foram renovados pela SPTuris com cotações da VM, do irmão do diretor da Quarter, e/ou da Oleiro, da coordenadora da Quarter:

  • Carregadores – R$ 2,3 milhões (orçamentos de ambos)
  • Produtores – R$ 67,1 milhões (orçamento da Oleiro)
  • Guia de turismo – R$ 4,9 milhões (de ambos, duas vezes cada)
  • Produtores – R$ 53,7 milhões (da VM)
  • Guia de turismo – R$ 2,9 milhões (de ambos, três vezes cada)
  • Carregadores – R$ 9,5 milhões (ambos)
  • Recepcionista – R$ 4,7 milhões (ambos)
  • Serviços técnicos – R$ 3,4 milhões (ambos, duas vezes cada)
  • Carregadores – R$ 2,2 milhões (ambos)
  • Serviços técnicos – R$ 1,1 milhão (ambos, duas vezes cada)
  • Centrais de Informações Turísticas (com SMTUR) – R$ 35,9 milhões (ambos)

Chama atenção também a presença recorrente de orçamentos de outras duas empresas: a LGL Case e a PPR Live, também com preços sempre acima dos valores já pagos à Quarter. Isso é incomum em um marcado competitivo – o usual é que, já sabendo quando uma empresa recebe por um serviço, uma concorrente tentar oferecer um preço melhor para pegar o contrato.

No caso da Quarter, as margens da empresa são altas. A agência recebe R$ 319 da SPTuris pela diária de um “carregador” e paga R$ 100 para quem oferece o trabalho como pessoa jurídica; logo, sem custos trabalhistas. Produtores que trabalham em tempo integral na Secretaria de Cultura recebem, em média, R$ 7 mil. A SPTuris paga aproximadamente R$ 40 mil por cada um deles.

Questionada sobre a decisão de escolher sempre a empresa de Victor nas pesquisas de preço para renovar com a empresa do irmão dele, a prefeitura não respondeu. A gestão municipal destacou, contudo, que o prefeito Ricardo Nunes pediu que a Controladoria Geral do Município investigue o caso. A Quarter não comentou.

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